O que é o Efeito Roseto?

É um fenômeno observado na pequena cidade de Roseto, na Pensilvânia (EUA), que se tornou famosa por apresentar taxa de doenças cardíacas significativamente mais baixa e expectativa de vida mais longa em relação à média nacional.

 O efeito Roseto destaca a importância dos fatores sociais e comunitários na saúde, sugerindo que o ambiente social e o suporte emocional, podem ter um impacto significativo na saúde física, muitas vezes, superando os efeitos de fatores de riscos individuais.

Esse fenômeno, é frequentemente citado em discussões sobre saúde pública e a importância de promover comunidades coesas e solidárias para melhorar a saúde geral da população.

O efeito Roseto mostra, que o bem-estar individual, o apoio social e o sentimento de pertencimento, estão relacionados à saúde e à longevidade

 

Breve histórico

Ao final dos anos de 1800, cerca de 1.200 imigrantes italianos, vindos de Roseto Valfortore, província de Foggia, a sudeste de Roma, se estabeleceram na região montanhosa da Pensilvânia (EUA), em busca por melhores condições de vida.

 Lá, fundaram uma cidade predominantemente de italianos, a qual chamaram de Roseto, em homenagem às suas origens.

Na década de 1950, o cardiologista Dr. Stewart Wolf e sua equipe, iniciaram as investigações sobre a baixíssima taxa de doenças cardíacas nessa população ítalo-americana, num período em que os infartos constituíam uma epidemia nos Estados Unidos – eram a principal causa de mortes em homens com menos de 65 anos. Naquela época, vivia-se o advento dos remédios que reduzem o colesterol e das rigorosas medidas de prevenção de problemas cardíacos. Os pesquisadores notaram que, apesar dessa população apresentar fatores de riscos típicos dos nor te-americanos, como dieta rica em gordura, tabagismo e sedentarismo, os residentes de Roseto tinham uma taxa de doenças cardíacas 50% menor do que a média nacional. Além das doenças cardíacas, a pesquisa também indicou que tal população apresentava taxas mais baixas para hipertensão, problemas relacionados ao estresse, suicídio, alcoolismo e vício em drogas.

Intrigado com essa discrepância, novos estudos foram conduzidos, dando ênfase à dieta, exercícios físicos, genes dessa população, e até aspectos geográficos da região. Nenhum desses fatores foi capaz de explicar tal fenômeno, quando comparado às demais regiões no entorno de Roseto. Então, pensou--se que o diferencial dessa população só poderia ser a própria comunidade de análise detalhada da saúde dos habitantes, examinando não apenas os fatores físicos, mas também os aspectos sociais e culturais da comunidade.

Algumas das principais características observadas incluíam:

• Coesão social: A comunidade era muito unida, com laços familiares e amizades fortes (valorização das relações interpessoais). Os habitantes se apoiavam mutuamente, interagiam entre si, o que promovia um ambiente social positivo.

• Estilo de vida comunitário: Os moradores frequentemente se reuniam para atividades sociais, como festas, celebrações e refeições em família. Essas interações sociais, eram comuns e valorizadas.

• Menos estresse: A vida em Roseto era caracterizada por um ritmo mais tranquilo e menos estressante em comparação com áreas urbanas mais movimentadas.

A forte rede de apoio social ajudava a reduzir o estresse. O espírito igualitário particular da comunidade desestimulava os ricos a ostentar o sucesso, assim como os malsucedidos sabiam que podiam contar com ajuda.

• Cultura e tradições fortes: A cultura italiana dos imigrantes influenciava hábitos de vida, incluindo dialeto próprio, a importância das refeições em família e a prática de atividades em grupo, que promoviam a saúde e o bem-estar.

• Baixa taxa de isolamento: Os habitantes de Roseto viviam em famílias multigeracionais, ou seja, era comum ver três gerações morando sob o mesmo teto e o respeito dedicado aos mais velhos. Além disso, mantinham conexões próximas com vizinhos e amigos, o que reduzia o isolamento social

 

Posteriormente, outros estudos foram conduzidos, incluindo um estudo prospectivo de 50 anos comparando Roseto à vizinha Bangor.

Observou-se que, à medida que os anos passavam e a coorte de Roseto abandonava sua estrutura social italiana, incorporando hábitos e estilo de vida norte-americano nos anos seguintes ao estudo do Dr. Stewart Wolf, as taxas de doenças cardíacas aumentaram, tornando-se semelhantes às das cidades vizinhas. O efeito Roseto, como ficou conhecido, destacou a importância dos fatores sociais na saúde física, mental e emocional, transformando o pensamento e atuação dos profissionais da saúde no que diz respeito à prevenção de doenças e promoção do bem-estar.

A pesquisa de Wolf ajudou a estabelecer a ideia de que saúde não é apenas uma questão de fatores biológicos, mas também de contextos sociais e relacionais. Convívio social em tempos atuais embora, tais evidências científicas datam da década de 1960, é necessário trazê-la novamente à nossa reflexão e à prática diária, considerando o atual cenário mundial de saúde pública. As doenças crôni co-não-transmissíveis, tais como obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes, neoplasias e doenças

respiratórias crônicas, bem como as questões de saúde mental, principalmente ansiedade e depressão, têm aumentado, apesar dos avanços nos meios de comunicação, disseminação de informações em saúde, formas de prevenção e acesso a tratamentos de saúde. Vivemos na era da hiper globalização, do avanço da internet e das redes sociais no nosso modo de viver e de nos relacionarmos, bem como a recente experiência de isolamento e distanciamento social ocorrida durante o período de pandemia por COVID-19. Tal cenário, pode dificultar a vivência em comunidade, a aproximação nas relações interpessoais com familiares e amigos, o suporte social em momentos de dificuldade, o abandono das experiências culturais e espirituais, das tradições regionais, a perda da identidade cultural e pessoal e da sensação de pertencimento, a desconexão com o ambiente e com as pessoas a nossa volta. O prejuízo nas relações sociais, por si só, já é um fator de risco para o adoecimento físico e mental do ser humano que, por natureza, é um ser sociável

Como melhorar nosso convívio social? Embora não vivamos em uma comunidade com as mesmas características da antiga Roseto dos anos 50 e 60, podemos aprender com tal fenômeno e, principalmente, pensarmos nossas relações interpessoais e humanitárias. Primeiramente, é preciso compreender que senso de comunidade vai muito além da vida virtual e do núcleo familiar. Desta forma, ressalta-se a importância em cultivar conexões significativas, construir relações saudáveis no dia a dia e não apenas em momentos específicos de dificuldade, pois as relações interpessoais funcionam como uma espécie de amortecedor nas adversidades, principalmente para quem vive longe da família e/ou do estado/país de origem. Abaixo, seguem algumas dicas de como podemos trabalhar melhor o convívio social e a vivência em comunidade de forma a promover saúde e bem-estar:

• Invista em relacionamentos interpessoais significativos;

 • Fortaleça sua rede de apoio;

• Esteja mais conectado com as pessoas fisicamente do que virtualmente

Comunique-se mais e melhor (esteja aberto ao diálogo e pratique a comunicação não violenta);

• Seja um bom ouvinte, tenha mais respeito e empatia com o outro;

 • Realize atividades prazerosas de lazer em grupo;

• Resgate ou crie algumas tradições da família, tais como: receitas culinárias, fazer pelo menos uma refeição diária em família, visitar algum parente/amigo ou fazer algum passeio específico aos finais de semana e ter momentos de confraternização em datas comemorativas;

• Participe de tradições culturais da região, tais como: preparações culinárias típicas, festas populares, artes, contos e lendas, cantigas, danças e esportes.

Busque e, se necessário, crie oportunidades para contribuir com o bem-estar das pessoas ao seu redor (solidariedade);

• Seja mais envolvido e participativo em sua comunidade;

• Participe de causas voluntárias que fazem sentido para você.

Pare um instante e reflita sobre como você está exercendo seu papel na sua comunidade, no vínculo com as pessoas à sua volta e nas conexões emocionais que tem estabelecido nos últimos anos.

Sempre é tempo de repensar e, se necessário, recriar e/ou fazer ajustes para vivermos melhor em comunidade, termos mais saúde, bem-estar e qualidade de vida.

 

Referências Bibliográfica

 

Egolf, B.; Lasker, J.; Wolf, S.; Potvin, L. The Roseto effect: a 50-year comparison of mortality rates. Ameri can Journal of Public Health, nº 82, 1089-1092, 1992. Disponível em: https://ajph.aphapublications.org/doi/ epdf/10.2105/AJPH.82.8.1089 2. Lasker, J.N.; Egolf, B.P.; Wolf, S. Community social change and mortality. Social Science & Medicine, Vo lume 39, Edição 1, 1994, 53-62. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii /0277953694901651?via%3Dihub 3.. “Efeito Roseto” e os riscos da solidão para a saúde mental, 2022. Disponível em: https://sobreoviver.crmvrj.org.br/2022/11/ efeito-roseto-e-os-riscos-da-solidão-para-a-saúde-mental/ 4. Minha Vida. Bem-estar. 6 formas de melhorar o estresse e a qualidade de vida através do Efeito Roseto, 2024. Disponível em: https://www.minhavida.com.br/materias/materia-23934